Mitos e verdades sobre o leite I

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Conversamos com a pesquisadora do ITAL, especialista em produtos lácteos, Darlila Gallina, sobre o leite e algumas dúvidas foram esclarecidas.

Você também pode conferir a entrevista que gravamos com ela no canal do Coma Bem no Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=WOKaCIl1yrE&t=16s

 

  • Darlila, qual o cenário do consumo do leite hoje, no Brasil?

A produção nacional de leite em 2015 foi em torno de 35 bilhões de litros (IBGE). No entanto, apesar de ser um grande produtor, o País ainda importa lácteos para abastecer o mercado interno. O consumo atual per capita de lácteos é de cerca de 170 litros/habitante/ano (Quadro 1). A média de consumo nos países desenvolvidos alcança 220 litros/habitante/ano (Zoccal, 2016). Para alcançar os recomendáveis 200 litros, o País precisaria produzir 45 bilhões de litros/ano (Zoccal, 2017). Vários estudos mostram que se ocorrer aumento de renda da população haverá crescimento do consumo de lácteos (Zoccal, 2016). No Brasil, a estimativa é de que um terço da produção nacional seja consumida na forma fluída, portanto 11,6 bilhões de litros, ou seja, 57 litros/per capita/ano ou 4,8 litros/mês, que é um valor semelhante ao dos países desenvolvidos (Zoccal, 2017).

O leite não é um alimento facilmente substituído por outro produto, porque é difícil consumir todos os nutrientes necessá­rios em uma dieta saudável sem incluir lácteos, principalmente o cálcio, o potássio e a vitamina D, que estão relacionados à saúde pública (Zoccal, 2017). No entanto, o consumo de derivados, principalmente de queijo e iogurte, é baixo. Por isso a demanda interna deve crescer nesse segmento (Zoccal, 2016).

  • Existem muitos mitos acerca desse consumo, você acha que isso contribui para que as pessoas deixem de beber leite?

Sim, sem dúvida. Devido às facilidades dos meios de comunicação e mídias eletrônicas (internet, celular, TV, etc.), onde muitas informações errôneas são divulgadas, sem a preocupação com a veracidade e especialmente sem base ou comprovação científica.

Exemplo:

Nenhum animal adulto bebe leite exceto o Homem! Experimente dar leite para um animal adulto de outra espécie (gato, cachorro, porco, etc….) para ver se ele bebe ou não? Isso é uma questão de disponibilidade! O leite contém muitos nutrientes que o torna um alimento importante!

O homem não precisa tomar leite! Se tiver outras fontes de nutrientes para suprir as necessidades que o leite supriria. Assim como o homem não precisa tomar café, chá, vinho, cerveja, vodka, cachaça, refrigerante, etc….

Muitas são escolhas, umas que podem trazer benefícios pensando em nutrição, e outras que além de não trazer benefícios pode ocasionar danos à saúde. Precisamos falar em necessidade e também em nutrição para diferenciar as coisas!

  • O leite pode ser considerado um alimento funcional?

O leite é uma emulsão de cor branca, ligeiramente amarelada, de odor suave e gosto levemente adocicado. É o produto da secreção mamária das fêmeas dos mamíferos sendo o primeiro alimento que o homem conhece. O leite é um importante alimento, pois contém uma grande variedade de nutrientes essenciais ao crescimento, desenvolvimento e manutenção de uma vida saudável. Seu valor nutricional se deve principalmente ao seu conteúdo de proteínas de alto valor biológico (aminoácidos essenciais), vitaminas (em especial, A, B2, D e Biotina) e minerais (cálcio, fósforo, magnésio) (GALLINA, 2009).

Segundo a (ANVISA), alimento funcional é todo aquele alimento ou ingrediente que além das funções nutricionais básicas, quando consumido na dieta usual, produz efeitos metabólicos e/ou fisiológicos e/ou efeitos benéficos à saúde, devendo ser seguro para consumo sem supervisão médica (GALLINA et al., 2011).

Será que o leite pode ser considerado um alimento funcional?  Em termos de nutrição: o leite é o primeiro e possivelmente o mais completo dos alimentos ingeridos pelo homem e demais mamíferos, visto que apresenta um adequado equilíbrio de macro e micronutrientes, satisfazendo todas as necessidades nutricionais dos recém-nascidos nos primeiros meses de vida (ANTUNES e PACHECO, 2009).

Em termos de promoção de saúde: além de ser um alimento muito rico do ponto de vista nutricional o leite contém nutrientes que são capazes de modular funções fisiológicas específicas e, portanto, pode ser considerado fonte de ingredientes funcionais que podem promover imunomodulação, atividade antihipertensiva, atividade antimicrobiana e antiviral, ação no combate à osteoporose, na redução de peso e modulação da gordura corporal, etc (GALLINA et al., 2011).

Outra linha de estudos apresenta o leite como alimento que ajuda na perda de peso e de gordura corporal, devido à presença de cálcio. O cálcio age de forma sinérgica com outros componentes do leite para ajudar no controle de peso e adiposidade corporal. Atualmente, diversos estudos estão buscando revelar as interações existentes entre cálcio e obesidade. As investigações iniciais foram principalmente relacionadas às funções exercidas por este mineral no mecanismo fisiopatológico da hipertensão arterial e, apenas anos mais tarde estas mesmas funções começaram a ser associadas ao desenvolvimento e à manutenção do sobrepeso e da obesidade (COMINETTI et al., 2009).

Em respeito à fração lipídica do leite vale dizer, que alguns ácidos graxos são benéficos para a saúde, como o ácido linoléico conjugado, a esfingomielina (oriunda da membrana do glóbulo de gordura) e o ácido butírico, que, segundo estudos, apresentam propriedades anticarcinogênicas (PARODI, 1997, ROMBAUT e DEWETTING, 2006). O ácido linoléico conjugado (CLA) tem recebido a atenção da comunidade científica pela possibilidade de regular a distribuição da adiposidade corpórea, promover aumento da imunidade e prevenir alguns tipos de lesões preneoplásicas e de tumores, antiaterosclerose, inibição de radicais livres, alteração na composição e no metabolismo do tecido adiposo, imunomodulação, atividade antibacteriana e antidiabética (RAINER e HEISS, 2004). O CLA é produzido naturalmente pelas bactérias fermentativas presentes no estômago (rúmen) de animais ruminantes e está presente em maiores concentrações em carnes, leite e seus derivados (EVANS et al., 2002). As concentrações de CLA em produtos lácteos variam de 2,9 a 8,9 mg/g de gordura (KELLY, 2001).

Em relação às proteínas do leite, as caseínas agem sobre as células do sistema imunológico principalmente através de seus peptídios, caseinofosfopeptídios (CPP), glicomacropeptídio (GMP), a e b-casomorfinas podendo conferir atividade antimicrobiana e atividade imunomodulatória envolvendo ativação de macrófagos, células dendríticas e repressão e/ou ativação de linfócitos. As proteínas e peptídios da fração soro de leite apresentam um espectro bem mais amplo de atividades imunomodulatórias através de ações redutoras, antibióticas, imunoestimulação e/ou supressão da proliferação de linfócitos e citocinas (SGARBIERI et al., 2009).

Algumas proteínas do leite podem reduzir o risco de doenças cardiovasculares.  Peptídeos bioativos originados de proteínas do leite podem agir de forma sinérgica na saúde do sistema cardiovascular, diminuindo a pressão arterial sistêmica, diminuindo os níveis de colesterol sérico e diminuindo o risco de tromboses (PACHECO et al., 2008). O risco de hipertensão arterial pode ser reduzido pelo consumo regular de leite visto que contém cálcio e – no caso de alguns leites fermentados – pela presença de peptídeos com ação inibitória contra a ECA (enzima conversora da angiotensina – uma das principais moléculas responsáveis pelo controle da pressão sanguínea). Hidrolisados de proteínas o leite, caseinatos, proteínas do soro e proteínas de frações do leite são fontes em potencial de peptídeos inibidores da ECA (FITZGERALD et al., 2004). Ressalta-se que peptídeos derivados dos alimentos são considerados um meio brando e seguro, com menores efeitos colaterais do que as drogas normalmente utilizadas no tratamento da hipertensão (PIHLANTO-LEPPÄLÄ et al., 2000).

O leite pode apresentar peptídios bioativos, tais como os peptídios opióides (agonistas) e anti-opióides (antagonistas), derivados, por hidrólise enzimática, tanto das caseínas como das proteínas do soro. Um opóide é uma substância química com atividade semelhante à de morfinas que atuam tanto no sistema nervoso central como em órgãos periféricos produzindo efeitos fisiológicos como, por exemplo, sono e alívio da dor. A título de curiosidade, o nome “morfina” faz referência a Morfeu, o deus grego do sono. Existem opióides que são naturais como as endorfinas, liberadas durante atividades físicas de alta intensidade (GALLINA et al., 2011).

Proteínas do soro de leite são frequentemente usadas em nutrição esportiva, pelo seu importante benefício fisiológico, como a melhoria do desempenho e rápida recuperação muscular após o exercício (SOUZA et al., 2009). O perfil aminoacídico das proteínas do soro de leite favorecem a formação e recuperação dos tecidos, especialmente pelo elevado conteúdo em aminoácidos de cadeia ramificada e sulfurados (PACHECO et al., 2008).

Uma interessante função do leite é sua capacidade de modular a microbiota intestinal (termo antigamente conhecido por “flora”), pela promoção do crescimento de bactérias do gênero Bifidobacterium spp. Essa ação modulatória é mais evidente no leite materno e constitui um importante fator de proteção para os bebês que se alimentam exclusivamente desse leite (ANTUNES et al., 2009). A lactose também apresenta efeito bifidogênico (de estímulo da multiplicação de bifidobactéria) quando não totalmente digerido e absorvido no intestino delgado (SZILAGYI, 2002; SZILAGYI, 2004). No entanto, diversos outros microrganismos utilizam a lactose, não sendo esse substrato específico para bifidobactérias. O dissacarídeo lactose é encontrado no leite de todas as espécies de mamíferos, mas não ocorre em nenhum outro alimento. É possível que sua presença unicamente no leite, associada a outros fatores, esteja relacionada com a implantação de microbiota saudável em bebês (ANTUNES et al., 2009).

Os argumentos apresentados reforçam a afirmação de que o leite por si só poderia ser considerado um alimento funcional. Além disso, pode ser adicionado de outros compostos, potencializando efeitos promotores de saúde, sendo já encontrados no mercado diversos produtos com essa alegação (GALLINA et al., 2011).

  • Existe um limite de idade para o consumo?

Não existe limite de idade para o consumo de leite ou produtos lácteos. Quem não apresenta nenhuma restrição como alergia à proteína ou intolerância a lactose, não só pode como deveria consumir o leite e produtos lácteos devido sua qualidade e importância nutricional.

Sempre brinco em minhas palestras, que com a idade vamos ficando mais intolerantes, inclusive a lactose! Muitas pessoas não são intolerantes, mas apresentam uma má absorção ou digestão da lactose, simplificando, podem consumir produtos lácteos que apresentem menores quantidades de lactose. Eu mesma não consumo bebidas lácteas com soro, e normalmente não tomo leite fluído, já que nestes produtos o teor de lactose são maiores. Mas não deixo de consumir diariamente, queijos, iogurtes, leites fermentados, que irão me prover de boas bactérias para manter uma boa microbiota intestinal, além de suprir uma boa quantidade de cálcio!

Algumas informações importantes foram apresentadas no Workshop Leite e Saúde (ITAL), baseados em evidências científicas, apresentadas como conclusões na Palestra “Efeitos da Exclusão do leite na dieta”, pela Profa. Tit. Silvia M. F. Cozzolino (COZZOLINO, 2016):

– O leite de vaca e de outras espécies animais são excelentes fontes de nutrientes e podem fazer parte de uma dieta normal de indivíduos (a partir de 1 ano de idade) em todas as fases do desenvolvimento, especialmente na infância;

– A recomendação indiscriminada para restrição ao consumo de leite e derivados não encontra atualmente respaldo científico com nível de evidência convincente;

– A exclusão do leite pode levar à carência de nutrientes essenciais e interferir principalmente no desenvolvimento infantil.

– Estudos recentes têm demonstrado que indivíduos que se encontram nos percentis mais altos de consumo de leite têm menos obesidade e pressão arterial alterada.

– Resultados promissores têm sido obtidos com peptideos bioativos presentes no leite, que poderiam ter importância na redução do risco de doenças.

  • O que é melhor, leite de caixinha ou de saquinho?

Melhor! Melhor em termos de qualidade, sabor, composição, praticidade, conveniência?

A Instrução Normativa nº 62 do Ministério da Agricultura (BRASIL, 2011), regulamenta a produção, identidade, qualidade, coleta e transporte do leite tipo A, leite cru refrigerado e leite pasteurizado. Nesta categoria, há ainda diferentes processos de produção que determinam três classificações: pasteurizado tipo A, pasteurizado tipo B e leite pasteurizado.

 Leite pasteurizado

A pasteurização, de acordo com a legislação (BRASIL, 2011), consiste em submeter o leite a tratamento térmico na faixa de temperatura de 72 a 75°C durante 15 a 20 segundos, seguindo-se resfriamento imediato até temperatura igual ou inferior a 4°C. Este tipo de tratamento térmico, chamado de HTST (High Temperature and Short Time) embora elimine a microbiota patogênica do leite, não elimina todos os deteriorantes. Após a pasteurização, o leite contém ainda uma carga microbiana, que embora não seja capaz de causar doenças, provoca a deterioração do produto, o que faz com que este produto tenha uma vida útil de poucos dias. Por esse motivo, o leite pasteurizado deve ser conservado sob refrigeração e tem um prazo de validade médio de 5 a 10 dias, dependendo da sua qualidade microbiológica inicial.

O leite pasteurizado tipo A é obtido sob um controle mais rigoroso, contendo, portanto uma menor quantidade de microrganismos. Os leites tipo B e o pasteurizado são transportados para a indústria onde são pasteurizados e embalados. O leite tipo B não está contemplado na legislação federal (MAPA), mas está na legislação estadual (SISP). O terceiro tipo, que é chamado apenas de “leite pasteurizado”, é produzido a partir do leite cru refrigerado na propriedade rural e transportado a granel até a indústria processadora.

Teor de Gordura do leite pasteurizado:

_ Integral: teor de gordura original do leite da vaca (entre 3-4%), não há desnate.

_ Padronizado: teor de gordura padronizado em 3% (desnate parcial)

_ Semi-desnatado: teor de gordura entre 0,6-2,9%

_ Desnatado: teor de gordura máximo de 0,5 %

Leite homogeneizado:

Tanto o leite pasteurizado quanto o leite UHT podem ser homogeneizados. O processo de homogeneização é um processo mecânico que visa reduzir o tamanho dos glóbulos de gordura evitando desta forma a separação da gordura (creme) durante a estocagem sob refrigeração. A homogeneização também melhora a digestibilidade da gordura presente no leite pela diminuição do tamanho dos glóbulos (GALLINA, 2009).

LEITE longa vida ou UHT

 O leite tratado por ultra alta temperatura (UAT ou UHT) é o mais consumido no Brasil tendo em vista sua praticidade de conservação e uso e também seu longo período de vida comercial. No tratamento UHT o ponto mais importante é o binônio tempo/ temperatura, para garantir esterilidade comercial do produto.

O tratamento UAT (Ultra Alta Temperatura) ou UHT (Ultra High Temperature) é utilizado na produção do leite “longa vida”, como ficou conhecido por sua extensa vida de prateleira, de aproximadamente 4 meses. O tratamento requer temperatura acima de 130°C (usualmente 140-150°C por tempo de retenção de poucos segundos (normalmente 2-5 segundos), seguido por resfriamento até uma temperatura menor que 32°C. Esse tratamento é suficiente para eliminar, além dos patógenos, os micro-organismos viáveis no produto final, ou seja, todos aqueles que conseguiriam se multiplicar dentro da embalagem de leite UHT causando alterações. A embalagem do leite UHT também é diferenciada, protegendo o leite da exposição à luz e ao oxigênio, para evitar também outras possíveis alterações químicas. Desta forma o leite UHT pode ser armazenado em temperatura ambiente.

O Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade do Leite UAT define leite tratado por Ultra Alta Temperatura da seguinte maneira: leite homogeneizado que foi submetido, durante 2 a 4 segundos, a uma temperatura de 130°C, mediante um processo térmico de fluxo contínuo, imediatamente resfriado à temperaturas inferiores a 32°C e envasado sob condições assépticas em embalagens estéreis e hermeticamente fechadas (BRASIL, 1996).

O leite tratado por UHT pode apresentar sabor e aroma de cozido (o que pode interferir em sua aceitabilidade) e leve modificação do seu valor nutricional (principalmente se o tratamento térmico aplicado for excessivo). Ainda assim, o leite UHT é o mais comercializado no Brasil devido a sua longa vida de prateleira (de 4-6 meses) e por não necessitar de refrigeração.

Teor de gordura do leite UHT:

  • Leite UHT integral: mínimo de 3%
  • Leite UHT semidesnatado: 0,6-2,9%
  • Leite UHT desnatado: máximo de 0,5 %

Acondicionamento do leite UHT: Os leites UHT devem ser envasados sob condições assépticas em embalagens estéreis e hermeticamente fechadas, com materiais adequados para as condições previstas de armazenamento e que garantam a hermeticidade da embalagem e uma proteção apropriada contra a contaminação. As embalagens são conhecidas como caixas ou caixinhas longa vida e são compostas por múltiplas camadas. Os leites UHT são mantidos a temperatura ambiente nos pontos de venda, não necessitando refrigeração (GALLINA, 2009).

  • Muitas pessoas tentam substituir o leite de vaca por outro tipo, como de coco e de amêndoas. Funciona mesmo ou só é indicado em casos específicos, como de alergia?

Esclarecendo …. A legislação brasileira (IN 62, MAPA) especifica Leite como o produto oriundo da ordenha completa e ininterrupta, em condições de higiene, de vacas sadias, bem alimentadas e descansadas. O leite de outros animais deve denominar-se segundo a espécie de que proceda (BRASIL, 2011).

Portanto, produtos obtidos a partir de coco ou amêndoas podem ser denominados extratos vegetais hidrossolúveis ou bebida a base de extrato vegetal. A ANVISA permite que o extrato vegetal de coco pode ser designado como leite de coco nos rótulos. Este órgão alega que como esse produto não possui a intenção de substituir o leite e claramente não induz o consumidor ao engano, então a expressão leite de coco pode ser utilizada (SBRT, 2018). Eu particularmente discordo da Anvisa, já que estes extratos vegetais estão sendo disseminados e divulgados na mídia visando justamente substituir o leite.

Estes produtos são indicados para o público que gosta de consumir os mesmos. Eles não irão suprir as necessidades nutricionais que o leite supriria. São compostos basicamente por carboidratos. E estão em alta devido aos Modismos!

 

  • Darlila, falando em alergia, existe uma dúvida muito grande que é a alergia à proteína do leite e intolerância à lactose. Qual a diferença entre elas?

Sim. Muito grande!

Intolerância a lactose

A intolerância a lactose decorre da incapacidade do indivíduo de digerir a lactose devido à deficiência ou ausência da enzima lactase (b-galactosidase), presente nas microvilosidade do duodeno, resultando em desconforto abdominal, flatulência, mal-estar e até mesmo diarréia em indivíduos intolerantes (GALLINA, 2009). A diminuição ou desaparecimento da lactase pode ocorrer após o desmame ou na primeira infância (PEREIRA et al., 2012). É uma condição normal na maioria da população mundial. Os índices de lactase na população mundial encontram-se correlacionados com aspectos culturais e com a tradição da pecuária leiteira. Populações que não possuem em sua cultura o hábito do consumo de leite e derivados manifestam uma maior prevalência dos sintomas de intolerância à lactose.

Estima-se que 65% da população adulta mundial fazem parte de um grupo que manifesta sinais e sintomas de má digestão da lactose. Ideias equivocadas sobre a manifestação e o desenvolvimento da intolerância à lactose (IL), induzem a crenças de que o leite e seus derivados devem ser excluídos da alimentação de pessoas que manifestam sintomas de intolerância à lactose (Pereira et al., 2012).

A lactase é uma enzima intestinal que divide a lactose em dois açúcares menores e mais absorvíveis, a glicose e galactose. A intolerância à lactose ocorre quando há uma deficiência de produção de lactase ou a atividade da enzima lactase é suprimida. A lactose é posteriormente fermentada por bactérias colônicas produzindo gás e pode resultar em inúmeros sintomas, incluindo cólica, inchaço, flatulência, constipação ou diarreia. Deve-se destacar que existem quadros mais leves e mais severos de intolerância à lactose. Os mais leves podem ser chamados de má digestão da lactose e maioria das pessoas nesta situação pode consumir alimentos contendo certa quantidade de lactose, como por exemplo, leites fermentados e queijos, sem se sentir mal.

A má digestão da lactose ocorre devido a um declínio na atividade da enzima β-galactosidase mais conhecida como lactase. A lactase é uma proteína, mais especificamente uma enzima, que hidrolisa a lactose em glicose e galactose. Sendo assim, os indivíduos com má digestão da lactose podem ou não manifestar os sintomas clínicos de IL em função do grau de decréscimo da atividade da lactase. Dessa forma, a deficiência da lactase pode existir, sem que necessariamente o indivíduo manifeste os sintomas de IL (Pereira et al., 2012).

A exclusão do leite da dieta de pacientes portadores de má digestão da lactose pode acarretar prejuízos nutricionais e consequentes danos à saúde. Existem no mercado produtos alternativos, com reduzidos teores de lactose, capazes de suprir as necessidades nutricionais desses pacientes (Pereira et al., 2012).

Importante ressaltar que uma pessoa com má digestão da lactose pode consumir produtos lácteos com teores reduzidos de lactose, como iogurtes e leites fermentados e queijos maturados, onde grande parte da lactose foi hidrolisada pelos micro-organismos na fermentação, ou seja, utilizada na produção de ácido láctico. Além disto, ressaltamos que um individuo que apresente má digestão da lactose, ao excluir da dieta os produtos lácteos, poderá se tornar intolerante a lactose, perdendo a capacidade enzimática que ainda estava presente (GALLINA e ANTUNES, 2018).

O consumo de produtos lácteos é fortemente indicado para o púbico que não apresenta restrição seja por alergia às proteínas do leite, seja por intolerância à lactose. Para aqueles que apresentam intolerância ao açúcar do leite a indicação é para busca de produtos lácteos com baixa quantidade de lactose ou zero lactose, lembrando-se que os lácteos representam importantes fontes de cálcio. O consumo de produtos com quebra da lactose não é necessário para a população em geral e é inclusive prejudicial para diabéticos por elevar o pico glicêmico mais do que os produtos onde a lactose não foi quebrada. É importante ressaltar que o consumo a longo prazo de produtos zero lactose pode diminuir a quantidade da enzima lactase, o que pode resultar em dificuldade futura de digerir a lactose, ou seja, quem não é intolerante a lactose pode se tornar.                Para os indivíduos que tem intolerância ou má digestão lactose qual a indicação? Se a intolerância for comprovada por exames clínicos, optar por produtos lácteos sem lactose. Se apresentar má digestão da lactose não se deve dispensar os produtos lácteos (proteínas, vitaminas A, B12, riboflavina, minerais: Ca, P, Mg, K, Zn) e sim consumir produtos com baixos teores de lactose como queijos e iogurtes. Pesquisas recentes destacam o benefício de ingestões pequenas, porém regulares, de produtos lácteos ao longo do dia para ajudar na tolerância à lactose. Também mostraram que a maioria das pessoas com baixos níveis de enzima lactase podem consumir pelo menos uma xícara de leite (cerca de 12 gramas de lactose) por dia. A pesquisa também mostrou que se as pessoas com má digestão de lactose bebem leite em diferentes refeições ao longo do dia, podem consumir até duas xícaras de leite por dia, sem experimentar sintomas de intolerância a lactose (NUTRITION AUSTRALIA, 2015).

 

Alergia a proteína do leite – Reação alérgica a proteína de leite. Na alergia ao leite é necessário dieta restrita de toda fonte de proteína de leite, inclusive restrição de lactose. É uma alergia alimentar diagnosticada por exames médicos ao leite de um mamífero. Deve-se portanto excluir os leites dos outros mamíferos, até a comprovação de tolerância. Nestes casos é necessário acompanhamento médico, onde após o tratamento adequado é realizada a dessensibilização.

 

Fonte: Darlila Gallina, pesqusiadora do ITAL (Instituto de Tecnologia de Alimentos) com ênfase em Tecnologia de Produtos lácteos 

 

Referências:

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BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).  Portaria Nº 146, de 07 de março de 1996. Publicado no Diário Oficial da União de 11/03/1996, Seção 1, Página 3977. Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade do Leite UAT (UHT). Disponível em:

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BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa Nº 62, de 29 de dezembro de 2011. Regulamento Técnico de Produção, Identidade e Qualidade do Leite tipo A, o Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade de Leite Cru Refrigerado, o Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade de Leite Pasteurizado e o Regulamento Técnico da Coleta de Leite Cru Refrigerado e seu Transporte a Granel. Diário Oficial da União 30/12/2011, Seção 1.

Disponível em:

http://sistemasweb.agricultura.gov.br/sislegis/action/detalhaAto.do?method=gravarAtoPDF&tipo=INM&numeroAto=00000062&seqAto=000&valorAno=2011&orgao=MAPA&codTipo=&desItem=&desItemFim=

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Viva Bem. Drauzio Varella esclarece cinco mitos e verdades sobre o leite. Por: Gabriela Ingrid. 23/03/2018.

Disponível em: https://vivabem.uol.com.br/listas/drauzio-varella-esclarece-cinco-mitos-e-verdades-sobre-o-leite.htm

Acesso em: 09/05/2018

Zoccal, R. Alguns Números do leite. Balde Branco. 13 de setembro de 2016.

Disponível em:  http://www.baldebranco.com.br/alguns-numeros-do-leite/

Acesso em: 09/05/2018

Zoccal, R. Leite no copo, no Brasil e no mundo. 16 de maio de 2017.

Disponível em: http://www.baldebranco.com.br/leite-no-copo-no-brasil-e-no-mundo/

Acesso em: 09/05/2018

Publicado em 12 junho de 2018