Mitos e verdades sobre o leite II

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Conversamos com a pesquisadora do ITAL, especialista em produtos lácteos, Darlila Gallina, sobre o leite e algumas dúvidas foram esclarecidas.

Você também pode conferir a entrevista que gravamos com ela no canal do Coma Bem no Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=WOKaCIl1yrE&t=16s

 

É verdade que adulto não precisa mais beber leite?

Adultos não precisam tomar leite! Parcialmente verdade. “Não é obrigatório, mas você provavelmente não conseguirá uma boa quantidade de cálcio em outros alimentos. Um adulto precisa de, no mínimo, 1 g de cálcio por dia. Esse nutriente é fundamental não só para os ossos, mas também para o estímulo neuromuscular. A outra opção seria retirar o cálcio de vegetais escuros, mas a quantidade é muito menor (Viva Bem, 2018).

Quando o cálcio vem do leite 30% dele é absorvido, ou seja, um copo 250 mL provém em torno de 96 mg. Se for proveniente de vegetais, a exemplo de brócolis, esse valor cai para 5%. Há estimativas que para incorporar a mesma quantidade de cálcio ofertada por um copo de leite deveriam ser ingeridas 4,5 porções de brócolis (320g), ou 3,5 porções de couve (228g) ou 15,5 porções de espinafre (1395g) (Saúde é Vital, 2017).

Como se sabe, os produtos lácteos são alimentos ricos em cálcio. O leite contém em média 1000-1200 mg de cálcio por litro e não possui nenhuma substância que inibe a absorção de cálcio no intestino, como oxalatos, fitatos ou polifenóis, presentes em muitos vegetais tornando a biodisponibilidade menor. Juntamente com o cálcio, a vitamina D tem um papel muito importante visto que estimula a reabsorção óssea e a absorção intestinal do cálcio.

Em cada copo de leite (porção de 200 ml) se tem 6,8 g de proteínas, de 8 a 10 g de carboidratos, 8 g de gordura, 243 miligramas de cálcio e 192 miligramas de fósforo. Em um artigo divulgado na revista Silemg Notícias, um adulto sedentário deve ingerir de 0,8 a 1,0 g de proteína por quilo de peso e para quem pratica atividade pode chegar a 2 g por quilo corporal (Zoccal, 2017).

A caseína, que é uma proteína rica em aminoácidos essenciais, ajuda no ganho de massa magra, ou seja, músculos. O cálcio, principal mineral encontrado no leite, auxilia na composição e no fortalecimento da massa óssea, mas também estão presentes o fósforo, magnésio, zinco e selênio. O leite é uma boa fonte de vitamina B2, que é importante para o sistema respiratório, além da vitamina A. As proteínas presentes no soro de leite auxiliam na absorção de minerais e na proteção imunológica por oferecer aminoácidos essenciais que o corpo não sintetiza (Zoccal, 2017).

Existem vários estudos comprovando os benefícios da ingestão do leite, como a lactose e proteínas, para manter os ossos fortes. O leite ajuda a reduzir os efeitos das bactérias causadoras de cárie e doenças da gengiva, mantendo os dentes saudáveis. A vitamina B12 e o triptofano melhoram a qualidade do sono e pesquisas recentes mostraram que o cálcio pode reduzir os sintomas físicos e emocionais da TPM. Embora o leite integral, queijos e manteigas sejam fontes significativas de ácidos graxos saturados na dieta humana, estudos recentes tem mostrado que o consumo desses produtos não está associado a um risco maior de doenças cardiovasculares, e parecem ainda reduzir o risco de obesidade e diabetes do tipo II (Zoccal, 2017).

 

O leite ajuda no combate à osteoporose?

Sim. Sem dúvida.

O consumo de leite tem um importante impacto na redução do risco de osteoporose, aumentando a mineralização óssea durante o crescimento e diminuindo as perdas ósseas relacionadas ao processo de envelhecimento. Estudos clínicos e epidemiológicos indicam que o consumo de quantidades adequadas de cálcio por meio do consumo de lácteos ou de alimentos ricos neste mineral, durante a vida, auxilia no desenvolvimento do pico de massa óssea até a idade de 30 anos, previne a redução da massa óssea com a idade, e reduz o risco de fraturas osteoporóticas na velhice (HUTH et al., 2006).

O baixo consumo de cálcio ao longo da vida é um fator que contribui para o desenvolvimento da osteoporose na fase adulta. Muitas pessoas consomem menos da metade da quantidade diária de cálcio necessária para a saúde dos ossos (GALLINA et al., 2011).

O suprimento adequado de cálcio está diretamente relacionado à formação óssea, principalmente durante a infância e a adolescência, contribuindo para prevenção do desenvolvimento de osteoporose e de fraturas na vida adulta e terceira idade. Há uma perda óssea progressiva em adultos a partir dos 40 anos, e esta perda é aumentada em mulheres após a menopausa, sendo normalmente recomendado o aumento da ingestão de cálcio na dieta.

De acordo com a Anvisa (BRASIL, 2005), a IDR – Ingestão Diária Recomendada de Cálcio para Adultos é de aproximadamente 1.000 mg = 1 g de cálcio por dia. Esse nutriente é fundamental não só para os ossos, mas também para o estímulo neuromuscular. Quando você não consome o cálcio, o organismo retira esse nutriente justamente dos ossos, então seu corpo começa a perder massa óssea. Principalmente mulheres na menopausa e pós-menopausa já sofrem com uma perda de ossos muito grande, por isso é essencial o consumo do leite nessa fase da vida até a terceira idade (Viva Bem, 2018).

 

O consumo de leite prejudica a absorção de Ferro?

Leite e ferro! Ferrando o leite!

O leite é considerado um alimento com baixo teor de em ferro, e ainda estudos demonstram que o cálcio dificulta a absorção de ferro. A anemia ferropriva é a deficiência nutricional mais comum do mundo. A deficiência de ferro em crianças está associada ao aumento da mortalidade infantil devido à maior suscetibilidade às infecções, pois essa deficiência diminui a resistência imunológica. A anemia afeta também o desenvolvimento motor e a função cognitiva. A ingestão de ferro durante a infância é freqüentemente baixa ou marginal na maioria dos países em desenvolvimento, devido à alimentação. A elevada prevalência de anemia em crianças de 6 meses a 3 anos está associada ao desmame precoce e utilização de leite de vaca integral nesse período, que não é uma fonte de ferro, a não ser quando enriquecido (GALLINA, 2009).

O leite foi o primeiro alimento a ser fortificado com ferro e é o mais utilizado em todo o mundo, tanto em países desenvolvidos como naqueles em desenvolvimento. Para o enriquecimento de leites fluídos com ferro, emprega-se um composto contendo ferro (o ferro aminoquelato) juntamente com a vitamina C. A vitamina C tem um papel muito importante visto que estimula a absorção do ferro. Os resultados de estudos têm demonstrado a possibilidade de prevenir e reduzir a anemia em crianças pelo uso de leites enriquecidos com ferro. Isto se deve a aceitação e facilidade de consumo deste produto pelas crianças, pela boa absorção do ferro utilizado para enriquecer o leite, em conjunto com a adição de vitamina C, mesmo com a presença do cálcio do leite. No Brasil existem programas governamentais que distribuem gratuitamente leite fluído enriquecido com ferro e vitaminas, a crianças e idosos de baixa renda, visando auxiliar na ingestão destes nutrientes e promover ações para melhoria da saúde pública (GALLINA, 2009).

 

É verdade que o leite de caixinha faz mal?

Leite de caixinha faz mal? Absurdo! Qualquer produto que não estiver apropriado ao consumo por estar contaminado ou estragado faz mal.

O leite em embalagem longa vida, conhecido como de caixinha, foi colocado lá para manutenção das suas propriedades por um tempo maior, em torno de 4 meses, sendo mantido a temperatura ambiente, por praticidade e conveniência. Sua composição é muito similar em termos de composição nutricional ao leite pasteurizado. A qualidade do leite de caixinha vai estar de acordo com a qualidade da matéria prima. Se o leite for bom, o leite de caixinha ou pasteurizado será bom também. Portanto, o leite de caixinha ou longa vida, pode ser consumido sem preocupação!

 

Leite engorda?

Leite engorda! Depende do que tiver acompanhando (brincadeira)!

Alguns estudos sugerem o contrário! Alta ingestão de cálcio parece estar associada com menor peso corporal. O cálcio alimentar pode formar sais com ácidos graxos > excreção e < energia da dieta. Pode > perda fecal gordura. Produtos lácteos parecem exercer efeitos mais significativos na adiposidade quando comparados apenas com a suplementação de cálcio de forma isolada. Os componentes do leite que podem contribuir para este efeito: a. Peptídeos do soro do leite; b. Ácido linoléico conjugado (CLA); c. Aminoácidos de cadeia ramificada (COZZOLINO, 2016).

Outra linha de estudos apresenta o leite como alimento que ajuda na perda de peso e de gordura corporal, devido à presença de cálcio. O cálcio age de forma sinérgica com outros componentes do leite para ajudar no controle de peso e adiposidade corporal. Atualmente, diversos estudos estão buscando revelar as interações existentes entre cálcio e obesidade. As investigações iniciais foram principalmente relacionadas às funções exercidas por este mineral no mecanismo fisiopatológico da hipertensão arterial e, apenas anos mais tarde estas mesmas funções começaram a ser associadas ao desenvolvimento e à manutenção do sobrepeso e da obesidade (COMINETTI et al., 2009).

 

Diabéticos devem tomar Leite sem Lactose?

Se o produto for sem lactose ou Zero lactose, deve-se verificar o rótulo para verificar os teores de glicose e galactose. Porque se a lactose do leite é hidrolisada via enzima lactase, ocorrerá à quebra da lactose com a produção de glicose e galactose. Ou seja, a glicose estará disponível e a absorção será mais rápida, o que é ruim para quem tem diabetes, já que pode ocasionar um pico glicêmico.

Se para a obtenção do produto lácteo (queijo, iogurte, leite) a lactose foi removida por um processo tecnológico (membranas ultrafiltração e/ou osmose reversa, por exemplo) ou fermentação; e não por hidrólise da lactose, e portanto, desta forma não apresentar glicose, ou apresentar uma quantidade muito pequena, aí sim, este produto poderá ser consumido por diabéticos, sem preocupação, ou risco.

 

 

Referências:

BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução RDC nº 269, de 22 de setembro de 2005. Regulamento Técnico sobre a ingestão diária recomendada (IDR) de proteína, vitaminas e minerais.

Disponível em:

 http://portal.anvisa.gov.br/documents/33916/394219/RDC_269_2005.pdf/2e95553c-a482-45c3-bdd1-f96162d607b3

Acesso em: 15/08/2007

COMINETI, C., BORTOLI, M. C., COZZOLINO, S M F. (2009). Leite: fonte de proteínas, minerais e vitaminas. In: ANTUNES, A. E. C., PACHECO, M. T. B. (Eds). Leite para adultos: mitos e fatos frente à ciência. São Paulo: Varela. p.177-214.

Cozzolino. S. M. F. Palestra Efeitos da Exclusão do leite na dieta. In: Workshop Leite e Saúde, Tecnolat, ITAL, 2016.

GALLINA, D. A. Leites fluídos disponíveis no mercado brasileiro: algumas considerações. Revista Indústria de Laticínios. Ano XIV, n° 79, mar/abril p. 38-44. 2009.

Gallina, D. A.; Zacarchenco, P. B.; Antunes, A. E. C. Leites e bebidas funcionais. Revista: Leite & Derivados. Volume: nº 125, Ano XX, p. 66-76. 2011.

HUTH, P.J.; DIRIENZO, D.B.; MILLER, G. D. (2006).  Major scientific advances with dairy foods in nutrition and health. Journal of Dairy Science, v. 89, p. 1207–21.

Saúde é Vital. A redenção do Leite. Por Thaís Manarini. Ed. Abril. 29 p. Janeiro 2017.

Viva Bem. Drauzio Varella esclarece cinco mitos e verdades sobre o leite. Por: Gabriela Ingrid. 23/03/2018.

Disponível em: https://vivabem.uol.com.br/listas/drauzio-varella-esclarece-cinco-mitos-e-verdades-sobre-o-leite.htm

Acesso em: 09/09/2018

Zoccal, R. Leite no copo, no Brasil e no mundo. 16 de maio de 2017.

Disponível em: http://www.baldebranco.com.br/leite-no-copo-no-brasil-e-no-mundo/

Acesso em: 09/05/2018

 

 

Publicado em 21 junho de 2018